quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Hoje de Manhã

                               Alberto Caeiro
Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...
Não sabia por caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.
Assim tem sido sempre a minha vida, e 
assim quero que possa ser sempre —
Vou onde o vento me leva e não me 
Sinto pensar.
 

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Sandálias Novas

                                                                                   Fernando Arosa

O carrinho era do tipo Jeep, com luzes piscando, preto, escrito Police. No alto, um emblema. Suas rodas altas. As portas abriam e, acionado o botão, ele saía em direção a algum chamado de emergência, um ladrão qualquer, um banco sendo invadido... a cabeça ia longe. Nessa época do ano, ele sempre retorna, assim como outros brinquedos. Sobretudo aqueles me faziam transformar o espaço real em fantasia, o tempo sequer existia.
                A infância, da minha infância, era um recheio de vida com muitas emoções. Ficava à espera de uma corrida, de uma árvore a subir, de uma bicicleta,  do colo nas horas difíceis, dos irmãos, primos e primas, tios e tias. No Natal, tudo isso era um sinônimo de reunião. O Natal da infância.
                Hoje me senti na obrigação de cometer uma crônica de Natal. Sei que tudo já foi dito, mas meu Natal é sempre um retorno aos brinquedos ganhados, às emoções vividas e às expectativas no futuro do pretérito.
                Adultos não esperam Papai Noel, ou melhor, fingem que não esperam. Aguardam a oportunidade de se tornarem pais ou tios (de qualquer natureza) para correr e alimentar a criança novamente. É claro que esperamos o bom velhinho. Mesmo escandalizados com os preços, com a inabilidade das pessoas, com as angústias da vida madura, estamos lá, acreditando que o renascer seja possível.
                É assim que os sonhos não deixam de existir: através do sorriso do outro, do abraço, da divisão das tarefas, dos encontros, da certeza de que ainda somos possíveis.
                Passei pela rua e o movimento é frenético. Entrei na galeria para pegar minhas sandálias no conserto. O sapateiro sorridente me desejou um Feliz Natal e afirmou, categoricamente, que posso andar mais uns cem quilômetros com o novo calçado, recuperado com afinco e maestria. Estou de sandálias novas e sigo com a ansiedade de ver meus filhos brilhando de alegria, renovados com nossas orações...
                Um Feliz Natal para todos.
               

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O homem enigmático

                                                                                                                Fernando Arosa 
            Ele acordou no horário de sempre, responsável, levantou-se pronto para o dia que surgia azulado.
            Notícias na TV o prenderiam em casa, porém as obrigações profissionais o expulsaram da mesa do café; beijos na esposa, filhos e rua.
            Os olhos encurtaram-se ante os raios solares fortes e irrefutáveis. Promessas de um dia de cinema. Pensava estar em um set, não se lembrava de dia tão iluminado, perfeito para sentir-se livre, com alguma filosofia, dores na alma, mas livre.
            Entrou na condução, lembrou-se da agenda cheia e desceu. Caminhou pela cidade com um ritmo ancestral, não teve pressa. Teve a justa e primitiva certeza de fazer parte daquele cenário: céu azul, linha do horizonte, mar, montanhas, pássaros... Anulou o resto que via e se integrou ao que o interessava e encantava.
            Chegou tarde ao escritório, pe´s cansados e coração e alma refeitos. Inquirido pelo atraso, respondeu:
            _ A manhã...sabem? Lembram da manhã? Estava perfeita!!! Me entreguei, só isso...

                                               ( Texto baseado em crônica de Paulo Mendes Campos – O pombo enigmático – 1962)

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Preguiça

                                                                                                                      Fernando Arosa

             Tarde da noite e nada! Dia seguinte, nada. Mais uns dias, horas a fio e nada ainda. Foi assim durante uma semana, quase duas. Na obscuridade, no fundo de uma gaveta imaginária, um depósito. Fiquei por lá, sem lançar mão de minhas armas. Motivo: preguiça.
            Acordei remoendo após uma semana, com dor no corpo de tanta preguiça. Não andei, não li, não consertei a bicicleta, não arrumei o armário que me espera há seis meses, não telefonei para uns e outros, percorri um site aqui outro ali, mas escrever, nada.
            Levei e apanhei os filhos na escola, com eles eu brinquei, aprendi que baleias podem ser venenosas (pelo menos as do meu filho), constatei que minha filha já se dá o direito de ficar emburrada, o que só me causa risos, trabalhei, trabalhei, mas escrever, nada, por pura preguiça.
            Essa inércia momentânea, por vezes, se dá em outros recantos da vida. Quantas vezes deixamos de reunir nossos amigos em nossa casa, para bater um papo, jogar conversa fora, trocar sorrisos? Quantas e quantas vezes fazemos dramalhão porque trabalhamos muito e deixamos a energia parada, sem circulação, nos nossos recantos, não fazemos nossa faxina interna por pura preguiça.
            Refazendo o caminho, vi que em muitos momentos abandonamos nossos direitos porque não queremos ter trabalho. E em nome desse não querer, recuamos e recusamos nosso progresso enquanto grupo.
            Escrever não é tarefa das mais fáceis. Temos que nos expor, refletir, escolher, minuciosamente recolher do cotidiano um motivo, trabalhar a sintaxe, a semântica... Para quem pegou o gosto, uma semana é muito tempo, por isso, eis aqui o antídoto.
            Que tal marcar um almoço no final de semana com alguém que não vê há muito tempo? Não dê desculpas, hoje é muito fácil cozinhar. Por que não aproveita a sexta-feira e marca para ver a árvore da Lagoa? Se der sol, encontre a turma da praia de antigamente, mas não se deixe mais abandonar de si mesmo.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O que se queima hoje?

                                                                                                                                       Fernando Arosa


                Sem dúvida, mais uma vez nos assustamos com a violência em nossa cidade. O que nos atinge de forma indireta torna-se objeto de crítica, posicionamento, reflexão. Algumas perguntas necessárias ouço pelas esquinas: onde estão as autoridades? Quando teremos segurança? Nossos impostos, onde estão?
                Penso em algumas outras questões porque, como sempre, quero entender a raiz do problema. Sei que não é simples, nada com seres humanos é muito simples.  Entendo que há muitos anos vivemos e convivemos com as desigualdades, e o tráfico se alimenta delas. Os números comprovam que o que se queima hoje não são os automóveis, ônibus... e, sim, o desejo de ter, a constatação da inalcançável ordem social, o que se queima agora, mais uma vez, é a falta da distribuição de renda, são as leis, o que se extingue é o direito.
                Nessa democracia do Brasil, o que importa é o que se pode consumir. As relações de direito, cada vez mais dilaceradas, não fazem parte da agenda dos governos, das escolas, das instituições religiosas, dos condomínios, da praça pública... estamos vendo a queima metafórica dos direitos do cidadão, sobretudo do direito à segurança.
                O Artigo III da Declaração dos Direitos Humanos prevê que “todo ser humano tem direito à vida, à liberdade, e à segurança pessoal”. E aí?
                E ainda, de forma poética, o poeta Thiago de Melo decreta em O Estatuto do Homem em seu Artigo VII “Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo”.
                Para onde iremos? Qual a opção: a civilidade (e seus direitos) ou a barbárie?

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Casas de cristal

                                                                                                                                       Fernando Arosa


                Os jornais de hoje trazem  notícias como se vivêssemos tudo igualmente todos os dias. Vejo isso como falência da criatividade de nós mesmos. Procurei uma notícia inusitada aqui, outra ali, mas nada que me desse motivo para comemorar e fazer uma crônica daquelas poéticas, pra cima, crônica de sorrir reflexivo.
                Uma das notícias que me causou espanto foi a de que agora podemos ter enterro online, ora vejam só, posso morrer aqui e ser velado via web cam. Digo desde já que não quero, vou ter vergonha de estar morto e sendo filmado, que coisa, me deixem morrer como antigamente, quem não puder se despedir de mim pessoalmente, mande um telegrama que é um símbolo de tecnologia e que mantém seu charme e elegância.
                O papa comentou que admite a camisinha para evitar a Aids. Será que ele achava que alguém ainda segue todas as recomendações da Igreja, mesmo os católicos praticantes usam camisinha, planejam os filhos e outras coisitas mais...
                O que me provocou hoje no noticiário foi a página da educação no Brasil. Entre outras coisas ditas, o que deram ênfase foi ao  fato de a profissão de professor não ser mais procurada. Muitos são os motivos, porém, neste primeiro momento em que resolvo falar um pouco sobre isso devo começar com uma simples conclusão: nada pode modificar enquanto os investimentos na área forem essa vergonha que é no Brasil. Nossa revolução precisa seguir a lógica do capital. Quando o dinheiro é pouco e mal aplicado, não se pode esperar muito.
                Jovens não procuram mais a profissão de professor porque sabem das dificuldades, não apenas as que são publicadas nos jornais, mas porque vivenciam nas salas de aula as deficiências, as inadequações. Nossas escolas ainda estão funcionando como depósitos de pessoas que precisam estar ali, mas não sabem muito bem com qual finalidade. Professores com baixos salários, sem tempo para reciclagem, trabalhando em duas, três ou mais escolas, atendendo a 500 alunos, como isso pode dar certo?
                Os espaços escolares não estão aparelhados para enfrentar as demandas de hoje, não basta computadores, não significa revolução. Vejo nas escolas aparelhos tecnológicos chegando, mas a falta de tempo, de organização, de planejamento ainda vigoram. Nossas escolas são como casas de cristal, frágeis. Muitas ações governamentais são louváveis enquanto projeto, mas e o dinheiro? É preciso mais dinheiro para a educação. Hoje faltam professores, amanhã faltarão médicos, engenheiros, filósofos, comunicadores, gente qualificada e formada para seguir construindo o país. A Educação está entregue em mãos que pedem, mais uma vez, seriedade, objetividade e políticas públicas que resgatem o profissional para sua vocação: educar. Com dignidade.